Romance: um gênero possível?

"Que pode dizer o romance que não se possa dizer de nenhuma outra maneira?"

Carlos Fuentes

ROMANCE: UM GÊNERO POSSÍVEL?

A reflexão sobre a natureza do gênero romance e seu desenvolvimento (ascensão e quedas) ao longo dos séculos não é nada recente, pelo contrário, é preocupação antiga. Inúmeros foram os momentos em que se questionou se o romance desaparecia com a modernidade ou se perderia a corrida no gosto e no lazer dos leitores com o aparecimento das mídias eletrônicas.

Ocorre que o processo de saturação de notícias e dos apelos visuais, nos telejornais ou novelas, na publicidade ou nas revistas, talvez tenha contribuído, paradoxalmente, para a recarga de energia em um gênero que parece sempre renascer de suas próprias cinzas; o romance encontrou outras vozes ao incorporar todas estas linguagens emprestadas e tirar proveito delas. Como escreve Roland Barthes (O grau zero da escrita) - "A literatura é como o fósforo: brilha mais no momento em que tenta morrer. A modernidade começa com a busca de uma literatura impossível".

O tempo só fez com que a experimentação já antecipada com as vanguardas do século 19 fosse reinventada para que a narrativa, mesmo sob escombros, fragmentada até a última potência, permanecesse vital para a expressão do homem contemporâneo. E, há que se observar, a narrativa não é força de lei para um romance ou um conto. Um romance epistolar ou confessional ou ainda textos em que não ocorre nada seriam excluídos do gênero? Como esclarece Carlos Fuentes em Geografia do romance, a pergunta mais pertinente, hoje, não é mais saber se o romance morreu, mas sim o que pode dizer o romance que não se possa dizer de nenhuma outra maneira.

A estrutura se esfacela

Antes, porém, de fincarmos os pés nos dias que correm e nas diversas expressões com as quais o romance se apresenta hoje, voltemos ao século 18, quando a prosa realista reinava em modelos coerentes e verossímeis de realidade, ao optarem seus autores pela fidelidade documentária com base na mimese e na descrição, em pormenores, da realidade retratada. Entre os objetivos principais, o romance buscava o entretenimento, a inspiração dos afetos e da emoção, bem como a identificação dos leitores com as histórias contadas, que deveriam tocar no universal a partir de dramas individuais. Se a obra não atingisse nenhuma destas instâncias, o abandono da leitura seria inevitável.

Para a recriação dos mundos da ficção, que se assemelham, na prosa realista, à "verdade" dos fatos e das descrições, o romancista manipula técnicas ilusionistas, ou seja, estratégias para fazer com o que o leitor se sinta imerso na trama e não consiga dela se descolar. Diante de um romance de feições realistas, cabe ao leitor uma atitude de contemplação face a um pequeno universo que lhe é apresentado – colorido ou transformado, mas sempre detalhado como um filme em forma de texto.

Sendo um reflexo dos questionamentos do indivíduo em sociedades complexas, ambivalentes e em permanente transformação, o romance foi se modificando com o tempo. Os séculos criaram novas disposições para que o gênero avançasse em outras direções. Nascido com a burguesia, o romance esteve sob suspeita de morte em muitos momentos da história, como foi dito. E, se não fossem as injeções de ânimo ou as transfusões de sangue novo, o gênero já teria sucumbido ao próprio desgaste de sua fórmula.

Como descreve Leandro Konder no ensaio "Uma nova teoria do romance" para a introdução do livro O romance está morrendo, de Ference Fehér, uma dessas transfusões necessárias, foi, por exemplo, James Joyce ao criar seu Ulysses em 1922, que fez com que o gênero se renovasse, ainda que negando seus princípios essenciais, embora não se possa esquecer Laurence Sterne e seu magistral Tristam Shandy antecipando toda esta história. De lá para cá conta-se uma série de escritores notáveis, como Thomas Mann, Virginia Woolf, Franz Kafka, Faulkner, etc.

No Brasil, a chegada do romance, ou pelo menos o momento em que este encontra maior cultivo entre os leitores, é com A moreninha, de 1844, de Joaquim Manuel de Macedo e O Guarani, de José de Alencar. Com o realismo, o romance vive um período de grandeza indiscutível, como Machado de Assis à frente da turma. Depois, a partir de 1930, surgem nomes de primeira categoria, como Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Clarice Lispector, etc.

A derrocada da estética realista trouxe o esfacelamento das estruturas da prosa nos quatro cantos do planeta. A macroestrutura com início, meio e fim, a descrição completa de personagens que se desenvolvem no tempo e espaço, o narrador onisciente, entre outros elementos da chamada prosa tradicional cederam espaço para que as vanguardas redimensionassem o cenário da literatura. Como escreve Nelson de Oliveira no ensaio "Transa trans: tributo às tribos extintas", em Verdades provisórias, o realismo sofreu um grande golpe na virada do século 20 quando:

(...) muitos críticos perceberam que o olhar realista, na sua tentativa de abarcar a natureza e a sociedade, pára na superfície das coisas, não vai ao cerne. Isso levou-os à paradoxal conclusão de que a realidade se encontra mais nos elementos que transcendem a mera aparência dos fatos do que neles próprios.

(OLIVEIRA, 2003: 147).

Também autor de Geração 90: os transgressores, antologia que reuniu alguns dos contistas e romancistas mais representativos do final do século 20, no Brasil, Nelson de Oliveira enumera alguns dos expedientes utilizados pelos ditos "transgressores" citados em sua pesquisa, quais sejam: a substituição do narrador onisciente por narradores inconscientes, o nonsense, a fragmentação da linearidade narrativa, a mistura de gêneros literários (ensaio, crônica, poesia, peça de teatro, roteiro de cinema), o monólogo interior, o fluxo da consciência, as divagações cínicas e rancorosas e o gosto pela prosa mal-comportada.

Entretanto, não há nenhum grande movimento literário insuflando os autores a escrever desta ou daquela maneira. Vários são os caminhos possíveis, e a liberdade é a palavra de ordem. Uma escrita delicada e bem composta como a de Milton Hatoum, sem malabarismos formais, por exemplo, convive com a estrutura absolutamente fragmentária de um Luiz Ruffato – ambos grandes ficcionistas deste tempo. A lista é enorme e levantar nomes pode ser um risco de esquecimento fatal.

O tapete das incertezas

Sabe-se que os leitores pisam o tapete das incertezas quando se aproximam da prosa de nosso tempo. Em um cenário marcado pela diversidade de vozes e estilos – fala-se aqui em especial da literatura brasileira – algumas características são bastante comuns à ficção do período pós-2000, quais sejam: a incompletude, tanto do ponto de vista do conteúdo quanto no que se refere à forma (opção pelos fragmentos); a solidão dos sujeitos imersos no caos; a inclusão da imagem e de seus efeitos no texto escrito; a presença de um narrador que não é mais flâneur, como no século 19, especialmente em Baudelaire – o poeta que investiga a cidade, estudioso da natureza humana - mas sim o zâpeur, aquele que se perde na impaciência do olhar e não se detém em nada nem ninguém. (Zâpeur vem de zapping, ou seja, a prática de mudar o canal da TV com o controle remoto sempre que as imagens se tornam aborrecidas).

É neste preciso ponto que ancoramos. Se todas as transformações desfiguraram a estrutura tradicional do romance, mas ainda assim o gênero define textos que são radicalmente opostos aos seus ditames, por que ainda se fala em gêneros e por que obras experimentais são lidas como romance quando despertam outras necessidades de leitura e interação? O questionamento nos leva ao segundo capítulo desta história: uma análise – e uma proposta de leitura - de uma obra que exemplifica com perfeição o tempo das incertezas: Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato.

Introdução :: Romance: um gênero possível?

Eles eram muitos cavalos, uma proposta de leitura

Entrevista com Luiz Ruffato

Referências bibliográficas

Ficções e realidades: A solitária busca pelo outro

Cláudia Nina :: Currículo lattes - CNPq

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