Entrevistas

A radicalização antropofágica de Luiz Ruffato

Luiz Ruffato - Cláudia Nina - entrevistas

Estranho que Eles eram muitos cavalos, de 2001, tenha sido vencedor do Prêmio APCA de melhor romance de 2001 e recebido o Prêmio Machado de Assis de Narrativa, da Fundação Biblioteca Nacional. O enquadramento "romance" só serve à obra na falta de outra denominação, até porque há vários episódios ou fragmentos na (des)estrutura da mesma que não tocam sequer as bordas do narrativo e são qualquer coisa menos "história" na concepção tradicional da palavra. Contudo, não se deve estranhar tanto assim a nomenclatura, já que esta obedece, segundo explica o autor, Luiz Ruffato, a necessidades externas, tais como catalogação bibliográfica e posicionamento no mercado editorial, embora, já nas primeiras linhas, saiba-se que a obra não é, nem nunca foi, nada semelhante ao que se espera de um "romance".

Bem, mas o que mesmo se espera de um romance no que vulgarmente se convencionou chamar contemporaneidade? É nestas águas que Ruffato mergulha aqui, numa conversa com o portal, que antecipa parte das reflexões a serem produzidas no livro Romance: um gênero possível, que vai reunir ensaios sobre o tema e será desenvolvido como parte das atividades previstas no projeto de pós-doutorado júnior, com bolsa do CNPq, na PUC-Rio.

- A primeira pergunta é inevitável: o que faz desta obra tão episódica, tão recortada, um romance? Como enquadrá-la na teoria dos gêneros?

- A denominação de "romance" a Eles eram muitos cavalos obedece a necessidades externas, de catalogação bibliográfica, de posicionamento no mercado editorial, de normas da crítica literária. Para mim, este enquadramento não interfere em nada na maneira como o livro foi concebido: como uma espécie de "instalação literária" (tomando de empréstimo uma terminologia das artes plásticas), uma radicalização antropofágica, em que várias maneiras de abordar a realidade são testadas para tentar registrar um dia numa megalópole como São Paulo. Ao formular a pergunta original, como formalmente dar conta de um conglomerado urbano com quase 20 milhões de habitantes, em que a maioria das pessoas só se vê uma única vez, em que a paisagem muda constantemente, em que o melhor do Primeiro Mundo convive, desarmonicamente, com o pior do Terceiro Mundo, percebi que a linguagem literária pura não seria suficiente. Então, busquei alimentar a narrativa com outras linguagens, como a da publicidade, do jornalismo, do teatro, do cinema, da iconografia, da poesia, dos folhetos populares de rua, das artes plásticas, da epistolografia, da internet, enfim, tudo o que a cidade oferece como possibilidade de decifração.

- Entre as inúmeras tentativas de definição por parte da crítica, ERMC já ganhou uma aproximação com Ulysses. Poderia comentar?

- Sem dúvida, Joyce está no meu horizonte de diálogos possíveis. Mas, antes dele, outros autores me interessam – o que prova, aliás, que não há, em Eles eram muitos cavalos, nenhuma novidade formal, apenas, talvez, uma radicalização experimental necessária aos nossos tempos, já presente em Sterne, em Xavier de Maistre (ambos autores de predileção do maior de todos os escritores, Machado de Assis), em Balzac, em Dorothy Richardson, em Dujardin, na tradição da poesia de vanguarda francesa de fins do século 19, em Pirandello, em Faulkner, em Cortázar, no nouveau-roman, no grupo do Oulipo, Pérec, Calvino... Enfim, a citação de Ulysses se dá, talvez, por toda a narrativa se concentrar em único dia e lidar com as impossibilidades formais de expressar uma realidade mutável. Mas, possivelmente, haja mais estranhamentos, entre um e outro, que propriamente aproximações.

- Assim como Ulysses é comumente lido em grupo como se fosse um teatro de vozes ou um jogral, como você sugere que seja a leitura de EEMC? (Não é uma imposição de leitura, falo apenas de uma sugestão).

- A minha idéia inicial era a de que Eles eram muitos cavalos tivesse não a forma de um livro, mas o de uma pequena caixa, onde os capítulos, sem título e sem paginação, aparecessem soltos, para que o leitor não só configurasse a sua própria narrativa (cada vez que embaralhasse as páginas, surgiria uma versão diferente dos fatos), mas que também participasse efetivamente, anotando suas próprias impressões nas páginas em branco que seriam oferecidas junto com os cadernos. Nesse sentido, meu desejo era o de compartilhar a autoria com o leitor. Agora, em 2003, um grupo de teatro de São Paulo, a Companhia do Feijão, fez uma magnífica adaptação de uma parte do livro numa peça intitulada Mire Veja, conseguindo um resultado surpreendente: levaram a simultaneidade perseguida no livro para o espaço de uma arena (a peça só funciona em arena). Alcançaram tanto sucesso que, naquele ano, ganharam os prêmios APCA e Shell, e até hoje a peça é encenada. Essa possibilidade de teatralização nunca tinha sequer passado pela minha cabeça...

- Um novo tipo de texto, como o seu, cria, de fato, uma nova proposta de leitura. Um romance episódico e radicalmente fragmentado como EEMC exigiria um leitor capaz de se deixar conduzir pela leitura e livrar-se da necessidade de pegar pela mão o fio de Ariadne? Mas não é difícil criar leitores-tecelões que vão fiar e desfiar ao mesmo tempo o que lêem numa leitura em que não há um tapete/desenho pronto e acabado para ser lido/interpretado/nele viajado? Seria mais fácil, neste sentido, escrever para os críticos?

- Eu me dirijo preferencialmente a um hipotético leitor, que entendo como um sujeito inteligente, que gosta de ser desafiado, e que está capacitado, por conta da convivência diária com as novas conquistas tecnológicas (internet, i-pod, televisão interativa, celular, etc etc etc etc), a compreender um mundo em que a essência não é mais a estabilidade mas a incerteza das coisas. Assim, acredito que há várias chaves para entrar no livro, desde as mais óbvias até as mais complexas, e que Eles eram muitos cavalos conseguiu atingir públicos variados, pois atualmente encontra-se em sexta edição (praticamente vendeu uma edição por ano, desde seu lançamento).

- Em relação aos alunos de graduação e pós-graduação. Às vezes, é difícil introduzir uma obra dita não-convencional dentro de sala de aula. Há alunos que mergulham de cabeça, mas outros não aceitam o convite e se mantêm distantes e ranzinzas. Como você vê esta certa relutância em aceitar romances que escapam ao narrativo?

- Acho que há uma certa dificuldade para tudo que foge ao óbvio. Mas sempre foi assim. As pessoas criam certas expectativas - em relação à vida, em relação à arte - e quando elas não se consubstanciam, frustram-se. É um posicionamento individual que independe da faixa etária. Já fui abordado por leitores mais velhos encantados com o desafio de transformar-se em um ativo participante do livro e leitores mais jovens irritados com a dificuldade para compreender o texto. Nesse sentido, creio que o encontro ou desencontro com um texto menos convencional se deve à atitude não convencional do leitor.

- Ainda existe hoje, historicamente, a possibilidade de se usar a nomenclatura "romance" nos termos em que se usava nos séculos anteriores? Baseio-me em uma pergunta de Roland Barthes em Preparação do romance (vol.1) que lança exatamente este questionamento levantado acima.

- Penso que não. Já não faz sentido a composição de romances em que o autor, onipresente, onipotente, onisciente, conta uma história com começo, meio e fim previsíveis. Depois de Marx, Freud e Einstein, novas conquistas foram feitas nos campos da Sociologia, da Psicologia-Psicanálise e da Física. O século 20 passou por duas grandes guerras mundiais e por inúmeras guerras regionais. A Humanidade conheceu a barbárie com o Holocausto. A tecnologia alcançou os mais diversos campos, transformando a nossa capacidade de compreensão da realidade. Modificando um pouco o famoso fragmento de Heráclito, de que um homem não entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio nunca é igual em dois momentos, acrescentamos: nem o homem é igual a ele mesmo em dois momentos diferentes. Nesse momento, acredito que estejamos passando por uma transição. A nossa capacidade de apreensão da realidade – com modificações significativas em paradigmas como espaço e tempo – nos impõe uma nova maneira de retratar o universo à nossa volta. E estamos tentando desenvolver novas ferramentas para dar conta dessas mudanças, sejam no campo da narrativa, seja no campo da crítica.

- Contemporâneo. Eis um adjetivo que parece estar bem afinado com a sua obra. Mas vamos detalhar um pouco mais o que caberia dentro de um rótulo tão vasto quanto diversificado?

- Contemporâneo para mim é um termo tão vago quanto moderno, pré-moderno, pós-moderno... Contemporâneo é literalmente tudo que está acontecendo nesse momento... Acredito sinceramente que os rótulos são ferramentas necessárias para descrever o estado das coisas num tempo determinado, mas que, ao longo da História, perdem completamente o sentido. Por exemplo: é uma limitação absolutamente destituída de sentido dizer que Machado de Assis é realista (ou que tenha tido uma fase romântica), pois, independentemente de filiação, ela paira soberano acima de qualquer classificação. Os grandes autores rapidamente se despregam dos rótulos, pois falam diretamente ao homem a que se destina sua obra.

- O que você acha do narrador zâpeur como reformulação do conceito de flâneur, conforme postulado no projeto "Zâpeur e a cidade: a narrativa caleidoscópica de Luiz Ruffato", de Samantha Braga, apresentada à comissão de avaliação do programa Rumos do Itaú Cultural? Para situar-nos, Samantha escreve:

"Luiz Ruffato (...) faz parte de uma estirpe de escritores contemporâneos que, para compor sua obra, reagrupa restos, dá forma aos destroços, (re)inventa um quebra-cabeça. As cidades-personagens de seus romances são caldeirões dos quais emergem indivíduos, comportamentos, situações e estórias (sic) das mais diversas. Ruffato é a própria figura do bricoleur, construindo seu texto a partir de fragmentos, do que é deixado à deriva como lixo, como resto. Cabe ao autor/narrador de seus personagens o encargo de percorrer as ruas à cata do que possa lhe servir, retomando a figura do flâneur baudelairiano. Entretanto, as cidades de hoje, de trânsito caótico e violência crescente, não comportam a flânerie, mas dão espaço ao zapeur, atual transeunte urbano que, apressado, nunca aprecia, apenas consome signos de forma quase automática".

- Eu acho uma ótima percepção do fenômeno da nossa época, em que, não só eu, mas diversos escritores (e artistas de outras modalidades) tentam dar sentido ao que não tem sentido. Essa mudança, de flâneur para zâpeur, é a que a nossa contemporaneidade exige. Um novo olhar, uma nova maneira de apreensão da realidade. No meu caso específico, me calço na Física para pensar a forma dos meus romances (a estrutura básica de Eles eram muitos cavalos está presente também no projeto Inferno Provisório, composto por cinco volumes, dos quais três já publicados). O pressuposto básico que norteia o meu trabalho é o de que não podemos compreender a totalidade dos fenômenos da natureza, mas podemos tentar nos aproximar de sua verdade por meio da compreensão de suas partes. Assim, se analisarmos os fragmentos poderemos, no conjunto, nos aproximarmos da compreensão do todo. E como a vida está em constante movimento, no máximo, podemos descrever o estado em que as coisas se encontram naquele instante mesmo em que as capturamos. Por isso, todos os meus "romances" são compostos de partes que às vezes se complementam, às vezes não...

Entrevista com Luiz Ruffato para o portal Jornal e Literatura

Introdução :: Romance: um gênero possível?

Eles eram muitos cavalos, uma proposta de leitura

Entrevista com Luiz Ruffato

Referências bibliográficas

Ficções e realidades: A solitária busca pelo outro

Cláudia Nina :: Currículo lattes - CNPq

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