Ensaio

Renata F. Magdaleno - Doutoranda em Estudos de Literatura

Ficções e realidades: A solitária busca pelo outro

Em 2002 o escritor e jornalista Bernardo Carvalho publicou o romance Nove noites. Nos agradecimentos da obra, afirma: "Este é um livro de ficção, embora esteja baseado em fatos, experiências e pessoas reais. É uma combinação de memória e imaginação – como todo romance, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos direta" (Carvalho, 2002, p.151). Na história, um jornalista lê um artigo escrito por uma antropóloga no jornal Folha de S.Paulo e fica obcecado com um personagem que ela apenas cita no texto: o etnólogo americano Buell Quain, que, aos 27 anos, em 1939, teria se matado no meio da floresta, enquanto voltava de um período de pesquisas numa tribo brasileira. O que leva o narrador a cruzar fronteiras atrás da verdadeira causa da morte, ninguém sabe. Para quem pergunta, usa a desculpa (assumida como tal) de que está escrevendo um livro. Mas ele coleciona entrevistas, faz viagens, reúne fotos do período (algumas ilustram a edição), recolhe cartas. Algo parecido com o que o próprio escritor Bernardo Carvalho deve ter feito ao reunir informações para escrever o romance. Quando um índio insiste em saber o que tanto ele quer com o passado, o narrador reflete:

As minhas explicações sobre o romance eram inúteis. (...) E, diante da sua insistência bovina, tive de me render à evidência de que eu não sabia responder à sua pergunta. Não conseguia fazê-lo entender o que era ficção (no fundo, ele não estava interessado), nem convencê-lo de que o meu interesse pelo passado não teria conseqüências reais, no final seria tudo inventado. (Carvalho, 2002, p. 86)

O trajeto do narrador e o do autor se confundem. Personagens reais, como o próprio Buell Quain e o antropólogo Lévi-Strauss, se misturam a outros inventados. Pistas concretas como fotos estão juntas com outras criadas. O material da pesquisa só consegue contar uma história que faça sentido no conjunto, mesmo assim, o leitor monta uma trama cheia de lacunas, preenchidas com a imaginação. No fundo, como diz o próprio escritor nos agradecimentos, é tudo ficção. Ou como repete seu narrador: "no final seria tudo inventado". Não há como saber onde começa a ficção e onde termina a realidade. Característica que vai de encontro com as próprias aspirações do narrador do romance, já que tudo o que ele tenta descobrir, do início à última página do livro, é a verdade, o verdadeiro motivo da morte do antropólogo.

O etnólogo, que vem ao Brasil investigar o outro, acaba, décadas depois, virando objeto de análise, se transformando no outro de uma nova investigação. Na hora de acompanhar esta pesquisa de campo, o leitor se depara com uma série de questões que vêm instigando antropólogos, métodos que vêm sendo questionados por etnólogos contemporâneos, mas que encontram eco em diferentes campos do pensamento e da arte. Como falar do outro com fidelidade, sem julgá-lo a partir de uma determinada cultura? Existe a possibilidade de escrever uma história sem que traços do autor fiquem respingados no texto? Existem métodos mais fidedignos, como os que abrem espaço para o diálogo? É possível trazer à tona a realidade, sem que a ficção venha junto? Existe esta realidade?

O antropólogo Cliffort Geertz reflete sobre estas questões no livro Obras e vidas – O antropólogo como autor (2002). Nos textos, analisa o papel do etnólogo em dois momentos: no "Estar aqui", escrevendo e publicando o material da pesquisa de campo; e no "Estar lá", em contato direto com o outro, recolhendo dados. Analisar estes processos faz com que ele reflita sobre o que acontece com a realidade observada quando esta é deslocada de seu espaço, retirada de um contexto e inserida em outro, o acadêmico, preparado para analisá-la. A crise das grandes certezas, a vida em metrópoles globalizadas e de fronteiras flexíveis, que facilitam o ir e vir de diferentes culturas, entre outros motivos, fizeram com que os antropólogos passassem a questionar seus métodos de análise do outro e tentassem se distanciar da etnografia clássica, nascida com os processos colonialistas. Mudou a forma de pensar e agir das pessoas ao longo do tempo e é natural que a antropologia, que estuda este homem, tentasse acompanhar estas transformações.

Os relatos escritos sobre as pesquisas de campo passaram a ser largamente questionados a partir de meados do século XX.. "Se percebe que eles são construídos, e construídos para persuadir" (Geertz, 2002, p.181), afirma Geertz sobre estes. Desde a possibilidade de narrar o outro, de enxergá-lo com os olhos impregnados de sua própria cultura, analisando-o segundo suas idéias de mundo, até o quanto de ficção aparece quando a realidade é deslocada de seu contexto e se há métodos, como os dialógicos, que possam ser mais fieis à verdade dos fatos do que outros. Vários pontos foram levantados neste sentido e estudos produzidos.

Em "Sobre a autoridade etnográfica" (1998), James Clifford delimita que estas novas concepções de pesquisa de campo se estabeleceram entre 1900 e 1960, mudando os trabalhos da antropologia americana e européia. A etnografia está imersa na escrita, já que é preciso traduzir a experiência em palavras, e a idéia de que todas as descrições não conseguem ser isentas, de que elas trazem o traço de quem fala e não daquilo ou daquele que está sendo descrito, empurrou alguns estudiosos da área a pensar no desenvolvimento de um método denominado auto-etnográfico. Defender a produção de auto-etnografias é, de certa forma, assumir ainda que quem fala, necessariamente, apresenta um ponto de vista em relação a uma realidade e não uma verdade totalizadora.

Nove noites trabalha com uma profusão de pontos de visita que, mesmo reunidos, nunca se transformam numa verdade total. E leva o leitor a pensar em questões que não incomodam apenas a quem realiza trabalhos de campo, mas que aparecem refletidas também na produção literária contemporânea. Flávio Carneiro, em No país do presente (2005), defende uma literatura brasileira que reflete os anseios de sua época. Por isso, num período pós-utopias e em que a repressão e a ditadura, que marcaram os textos da década de 70, deixam de assombrar, haveria uma reviravolta para a escrita da intimidade, caracterizada pelo detalhe, pelas verdades relativas, pela incompletude... "São marcas de uma época que já não acredita em verdades absolutas, em esquerda e direita, tradição e ruptura como conceitos fechados, preestabelecidos...consciente de seu papel relativo num mundo de verdades relativas" (Carneiro, 2005, p.28).

Esta escrita intimista, descrente da existência de uma verdade, que Flávio aponta como característica de uma literatura produzida no país a partir dos anos 80, não teria chegado a um extremo nas produções deste século? Numa época de virtualidades, de crise das representações, em que realidade e ficção se misturam; em que estudiosos têm constatado que falar do outro é, inevitavelmente, falar de si mesmo; em que as fronteiras flexíveis e a globalização vêm aproximando culturas, a solidão do indivíduo e a busca por uma realidade não se transformaram em marcas recorrentes dos textos literários contemporâneos? Pensar sobre estas questões, a partir do livro de Bernardo Carvalho, é o objetivo deste breve ensaio.

"Isto é para quando você vier" (Carvalho, 2002, p.6). A frase abre o livro e a longa carta escrita pelo engenheiro Manoel Perna, que se tornou amigo do antropólogo e, por morar em Carolina, cidade próxima à tribo Krahô, foi dos últimos a estabelecer contato com ele. Nela, um Manoel Perna já idoso, mas ainda impressionado com a morte trágica do colega, escreve contando os detalhes do período em que estiveram juntos. Foram apenas nove noites, mas cheias de confidências e histórias.

Perna se diz portador de uma oitava carta escrita por Buell momentos antes de se matar (ele escreveu sete, dirigidas a parentes e orientadores), que acabou escondendo de todos, para manter a integridade dos índios e do amigo morto. Nesta carta secreta estaria todo o segredo. A verdade. O relato preencheria todas as lacunas que as demais informações coletadas pelo narrador não conseguiram, que as dezenas de entrevistas, viagens, fotos e cartas recolhidas não deram conta. E, o principal, responderia, de forma inequívoca, o que toda pesquisa não conseguiu: por que Buell Quain se cortou e se enforcou diante das súplicas e do horror de dois índios que o acompanhavam na viagem de volta da aldeia para Carolina?

Buell era orientando da antropóloga americana Ruth Benedict, amante de Margaret Mead e seguidora de Franz Boas, considerado o pai da antropologia americana. Em território brasileiro, estava sob a responsabilidade de Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional por 17 anos. Manteve uma relação de amizade com a etnóloga americana Ruth Landes, que estudava as relações raciais entre os brasileiros, e com quem trocou cartas falando sobre os jogos de poder e censura no Brasil da década de 30 e suas sensações negativas frente a uma tribo de índios que ele não conseguia entender ou se identificar. "Encontrei um grupo de índios krahô e eles parecem pavorosamente obtusos. Têm cortes de cabelo engraçados, furam as orelhas e continuam sem roupas nas cidades" (Carvalho, 2002, p.26). Estabeleceu longas conversas com Lévi-Strauss, quando este esteve em Cuiabá, em 1938.

Fora os nomes reais e os fatos verídicos sobre a morte de Quain no meio da floresta, que qualquer pesquisa despretensiosa na Internet pode comprovar, a edição ainda vem ilustrada com fotos. Em duas delas, colocadas lado a lado, vemos o perfil e o rosto do etnólogo em close. Em outra, um grupo de profissionais com os quais o americano estabeleceu contato, como Ruth Landes, Heloísa Alberto Torres e Lévi-Strauss, posa sentado num recanto do Museu Nacional. Frente a esta, o narrador afirma:

Todos os fotografados conheceram Buell Quain, e pelo menos três deles levaram para o túmulo coisas que eu nunca poderei saber. Na minha obsessão, cheguei a me flagrar várias vezes com a foto na mão, intrigado, vidrado, tentando em vão arrancar uma resposta dos olhos de Wagley, de dona Heloísa ou de Ruth Landes. (Carvalho, 2002, p.28)

No trecho acima, está retratada a ansiedade e a urgência do narrador em descobrir a verdade escondida por trás das aparências, a realidade que a imagem dos corpos e as notícias frias dos jornais não puderam transpassar. Apesar do livro apresentar documentos, fatos comprováveis e fotos, por exemplo, que poderiam enfatizar uma sensação de real, o que o narrador faz, a todo momento, é instaurar no leitor a dúvida. Fotos, entrevistas, reportagens e cartas só servem para reforçar que a realidade está inalcançável. Talvez, só pudesse estar presente numa oitava carta, escrita momentos antes da morte, ainda escondida de todos. Uma misteriosa e ainda não descoberta última peça de um quebra-cabeça que, por mais pedaços que apresente, nunca parece completo.

No texto "La vida como narración" (2003), Leonor Arfuch discorre sobre o valor da experiência num relato. Ela afirma: "la noción de 'experiencia' aparece como testemonio subjetivo, como la más auténtica clase de verdad". Arfuch se refere a textos baseados na vida de pessoas. Para ela, o testemunho dos que estiveram presentes na situação, e a inserção de dados reais, pessoas, fotos e fatos que realmente aconteceram, garantem um grau de veracidade à história e possibilitam a criação de personagens confiáveis.

Em Nove Noites, porém, os relatos se sobrepõem e parecem comprovar exatamente o contrário: a dúvida em relação ao que está sendo dito. Os nomes de personagens que existiram de fato não garantem a veracidade do que eles produziram, como cartas e textos, ou do que falaram, no caso de entrevistas. Além disso, cada experiência contada aparece apenas como um ponto de vista em relação à situação e está longe de revelar uma realidade. O artifício acaba desconstruindo o real e inserindo uma sensação de insegurança no leitor. Isto acontece, por exemplo, no momento em que o narrador se depara com duas cartas de Buell Quain escritas sobre um mesmo assunto, mas para personagens diferentes.

O narrador-investigador descobre que Quain se correspondia com uma professora brasileira chamada Maria Júlia Pourchet. A filha ainda guardava fotos e bilhetes trocados entre os dois. Num deles, o etnólogo afirma: "Ontem à noite, fui a uma festa em homenagem a Humberto de Campos. Houve uns dez breves discursos sobre sua vida e sua obra. Fiquei espantado com o interesse que o povo de Carolina demonstra por tópicos literários." (Carvalho, 2002, p. 25)

Basta virar apenas uma página para constatar que o relato pode mudar de acordo com o interlocutor. Para a colega Ruth Landes, ele conta: "Carolina é um lugar tedioso – analfabetos e intelectuais. Me juntei a eles numa reunião para homenagear Humberto de Campos, grande poeta do Maranhão. (...) Tudo isso podia ser muito simpático se não fosse pela pompa ridícula" (Carvalho, 2002, p.26).

Ele estaria realmente escondendo sua verdadeira opinião da professora para parecer simpático? Ou quer passar para a amiga americana uma sensação de cumplicidade, forçando uma crítica que ela, sofrendo com burocracias brasileiras, aprovaria? Não há como saber. O mesmo acontece em relação às descrições de personalidade do etnólogo. Para uns, era um homem excêntrico, que vivia escondendo que era rico e vivendo de forma simples, enquanto financiava pesquisas e jantares para amigos e autoridades. Num outro momento, é descrito como uma pessoa solitária, muito fechada, com ar de quem já viu tudo pelo mundo. Ninguém tem certeza se era solteiro ou casado, hetero ou homossexual.

O jovem antropólogo da universidade de Columbia, Bernard Mishkin, o definiu num jantar como: "Filho de pai alcoólatra, mas rico, e de mãe neurótica e dominadora. Obriga-se à homossexualidade com negros, dos quais ele tem horror. Garoto de talento, poeta". E, quando o leitor pensa ter descoberto nova faceta de Buell Quain, mais uma peça importante aparece. O narrador acrescenta notas escritas pelo companheiro de Mishkin no jantar: "Como caluniador, não há ninguém melhor do que Mishkin" (Carvalho, 2002, p.116). Novamente, a dúvida é tudo o que resta.

O mesmo acontece em relação às teses sobre sua morte. Em algumas cartas ele revela estar com uma doença incurável e em grau avançado. O narrador-repórter insinua que poderia ser sífilis, contraída no momento em que Buell chegou ao Brasil e se instalou numa pensão barata da Lapa. Era carnaval no Rio de Janeiro e ele passou a noite com uma negra que, por estar vestida de enfermeira, lhe passou uma falsa sensação de credibilidade. Mas, assim como a roupa pode ter sido simplesmente uma fantasia de enfermeira, a tese em momento algum é comprovada. Na carta de Manoel Perna há a insinuação de que o etnólogo pode ter acabado com a vida por complicações familiares e tenha tomado a decisão de se suicidar no momento em que recebeu no meio do mato cartas de parentes dos Estados Unidos. Parece que a mulher o havia traído com o cunhado, um índio contou. Mas, na língua da tribo, a palavra cunhado tem múltiplos significados e não foi encontrado nenhum indício irrefutável de que o antropólogo realmente tivesse uma esposa. Apresentar diálogos, documentos e entrevistas de pessoas que conviveram com o etnólogo não aproxima o narrador da verdade que tanto procura.

O texto "On dialogue", de Vincent Crapanzano (1990), começa refletindo sobre uma carta que o escritor Rainer Maria Rilke teria enviado para a sua esposa, contando sobre o encontro que tivera com o escultor Rodin. O poeta define a situação com uma imagem: "And there stand those stupid languages, helpless as two bridges that go over the same river side by side but are separated from each other by an abyss. It is a mere bagatelle, an accident, and yet it separates" (Crapanzano, 1990, p.269). Rodin sem saber alemão e Rilke com seu francês precário não conseguiram se entender e a situação é usada pelo autor do texto para refletir sobre as interpretações que os etnólogos apresentam de seus trabalhos de campo. "It describes many of the field situations in which the anthropologist find himself. Rilke probably knew French better than most anthropologists know the language of the people they study (Crapanzano, 1990, p.269)", afirma Crapanzano.

A barreira da língua aparece como uma primeira dúvida sobre as conclusões etnográficas, mas o texto vai além e reflete sobre teorias antropológicas que pensam formas mais eficazes de atingir a realidade do outro. O diálogo não seria mais fidedigno do que a mera fala do etnógrafo? Incluir a fala do outro no texto não seria uma forma de apresentar esta realidade sem intermediários?

O diálogo parece apontar para uma relação igualitária. Mas as análises de Crapanzano, sobre diferentes tipos de conversas adotadas por estudiosos e o trabalho de diversos antropólogos que pensam sobre esta possibilidade, questionam esta idéia. Por mais que conversas presumam a interação entre dois mundo e o entendimento verbal das diferenças, não garantem uma verdade mais pura. A própria língua do etnólogo, por exemplo, não é neutra, possui artifícios literários que mudam a fala do outro na hora da tradução e transcrição. E mesmo que a conversa tenha sido gravada, existe uma distância entre o evento, a gravação e a descrição. O autor ressalta que todo um contexto se perde ao longo deste caminho. Portanto, para ele, haveria a criação de diálogos fantasmas, produtos de reduções e reorientações pragmáticas. Determinados pontos e falas são destacados e o resultado é sempre um terceiro elemento, inevitavelmente borrado com traços de ficção. O leitor lê a sombra de uma situação acontecida. Para Crapanzano, mesmo que os dois interlocutores de uma conversa falem a mesma língua, a imagem de Rilke permaneceria: a de duas pontes que não se tocam, com um abismo no meio. Um nunca entende o outro exatamente como este pretendia se expressar.

O narrador-etnólogo-repórter da história utiliza o método do diálogo, mas, a todo momento, demonstra como a fala do outro é distante da verdade, como é impossível atingir uma realidade acontecida pelo relato de outros. Logo na segunda página do livro, um trecho da carta de Manoel Perna diz:

Mas não me peça o que nunca me deram, o preto no branco, a hora certa. Terá que contar apenas com o imponderável e a precariedade do que agora lhe conto, assim como tive de contar com o relato dos índios e a incerteza das traduções do professor Pessoa. As histórias dependem antes de tudo da confiança de quem as ouve, e da capacidade de interpretá-las. (Carvalho, 2002, p.7)

Na sua visita à tribo krahô onde esteve Buell Quain, o narrador reflete sobre a reação de um índio: "Ele queria porque queria saber a razão da minha presença na aldeia. (...) não dava para concluir se no fundo ele sabia de alguma coisa ou se não sabia de nada e estava tão curioso quanto eu" (Carvalho, 2002, p.85-86). O fundo é o lugar inatingível onde o real poderia estar escondido. Na história, a verdade só pode estar naquela carta, a oitava, a mesma que o leitor só sabe que existe por causa do relato de Manoel Perna, da declaração do engenheiro de que escondeu este último envelope, com a resposta para o que por anos permaneceu como um mistério.

Mas, chegando quase ao fim do livro, o narrador afirma: "Manoel Perna, o engenheiro de Carolina e ex-encarregado do posto indígena Manoel da Nóbrega, morreu em 1946, afogado no rio Tocantins (...) Manoel Perna não deixou nenhum testamento, e eu imaginei a oitava carta" (Carvalho, 2002, p.119-121).

Isto é para quando você vier. É preciso que esteja preparado. Quando se sentir só e abandonado, quando achar que perdeu tudo, pense no dr. Buell, meu amigo. Em algum momento, todos se sentirão sozinhos e abandonados. Só um teste incessante aos limites do corpo pode nos dar a consciência de que continuamos vivos. Se pomos o corpo à prova, não é pelo capricho fútil de saber até onde podemos ir, não é para desafiar os limites, mas para saber onde estamos. (Carvalho, 2002, p.118)

A declaração faz parte de um dos trechos da imaginária carta de Manoel Perna, que transpassa todo o livro. E é principalmente nesta fala que acompanhamos a trajetória de Buell Quain e encontramos largas reflexões sobre sua personalidade e o que poderia tê-lo empurrado para a morte.

Buell ganhou o gosto pelas viagens aos 14 anos, quando acompanhou o pai numa reunião do Rotary Club na Europa e visitaram a Holanda, a Alemanha e os países escandinavos. Aos dezesseis, já tinha atravessado os Estados Unidos de carro. Antes de entrar na universidade, passou seis meses na Europa e no Oriente Médio, onde visitou Egito, Síria e Palestina. Num período de férias foi para a Rússia. Em 1931, embarcou por seis meses como marinheiro num vapor para Xangai. Quatro anos depois, estava em Nova York e, no ano seguinte, em Fiji. A fala de Manoel Perna caracteriza os muitos portos visitados pelo mundo como uma "busca sem fim e circular" (Carvalho, 2002, p.37). Dos Estados Unidos ele passou para a Europa, depois para locais mais exóticos e continuou sua procura entre tribos indígenas e culturas isoladas.

Quanto mais ele se aventurava pelo mundo, mais se deparava com uma solidão impossível de vencer. Das muitas características atribuídas a Buell por diferentes personagens, a única unânime é a de uma pessoa extremamente só. Era como alguém que se sentia estrangeiro no mundo, em busca de um local de pertencimento e adequação por onde passava.

Ao contrário dos outros, vivia fora de si. Via-se como um estrangeiro e, ao viajar, procurava apenas voltar para dentro de si, de onde não estaria mais condenado a se ver. Sua fuga foi resultado do seu fracasso. De certo modo, ele se matou para sumir do seu campo de visão, para deixar de se ver. (Carvalho, 2002, p.100)

Uma solidão que parece acompanhar uma busca por real e ir até o extremo para atingi-lo. Ele se vê de fora, uma construção sem sentido ou identificação, e quer deixar de ver e apenas ser, se sentir conectado com algo que lhe pareça real, num mundo de representações vazias, como reafirma a carta de Perna: "o dr. Buell, meu amigo, bebeu comigo e me contou que procurava entre os índios as leis que mostrariam ao mesmo tempo o quanto as nossas são descabidas e um mundo no qual por fim ele coubesse? Um mundo que o abrigasse?" (Carvalho, 2002,p.42).

Ao discorrer sobre tentativas de relatar experiências em narrativas autobiográficas, Leonor Arfuch, em "La vida como narración" (2003), desenvolve o conceito da solidão do existir. Para a autora, é possível compartilhar tudo com o outro, exceto o existir. A experiência, para ela, pode ser apenas narrada, mas não dividida, já que toda mensagem transmitida carrega inevitavelmente a frustração de não poder ser totalmente compreendida pelo receptor. Quem recebe interpreta de acordo com suas experiências de vida, sua cultura e sua idéias de mundo, nunca exatamente da mesma forma que o emissor pensou em transmitir. Arfuch continua sua reflexão afirmando que o relato autobiográfico poderia representar uma tentativa de sair deste isolamento. Como Sherazade faz em As mil e uma noites. Ela conta uma história atrás da outra para fugir da morte. Contar uma experiência seria, da mesma forma, uma maneira de sair do isolamento, adiando o confronto com esta solidão impossível de ser superada.

As reflexões de Leonor Arfuch vão de encontro com as de Vincent Crapanzano sobre o diálogo. A imagem de Rilke que Crapanzano retrata em seu texto, a de duas pontes paralelas com um abismo no meio, serviria para ilustrar também o conceito da solidão de existir desenvolvido por Arfuch. Há uma parte do outro que permanece incompreendida, mesmo que os dois interlocutores de uma conversa falem a mesma língua. Por mais que tente narrar suas experiências, elas nunca serão sentidas da mesma forma pelo receptor, que vai interpretá-las de acordo com sua própria história de vida.

Estas mesmas idéias transpassam a narrativa de Bernardo Carvalho. Cada personagem interpreta Buell Quain de uma forma diferente e, por mais que o narrador investigue, vá atrás de fatos e documentos, nunca chegará a verdade sobre o que sentiu e o que pensou o antropólogo na hora de se matar. A experiência, como reforça Arfuch, pode ser apenas narrada, nunca compartilhada. As duas buscas: a de Buell por um local de pertencimento e a do narrador-jornalista pela verdade da história estão marcadas pela solidão. Quanto mais eles buscam o outro, mas se deparam com si mesmos. O leitor do livro também nunca chegará a verdade do narrador ou do etnólogo. Há uma solidão existencial inerente a todos os personagens envolvidos na história.

A trajetória de Buell relatada no livro é marcada por uma sensação de inadequação. Ainda adolescente, nos Estados Unidos, assistiu vidrado a uma história de amor no Pacífico Sul. A partir de então, o mundo parecia estar em outro lugar e era preciso ir de encontro. Mas, uma vez entre os nativos, Quain percebe que o seu lugar também não é entre eles. Em muitos trechos do livro, aparecem cartas em que o etnólogo expressa sua falta de identificação com a tribo estudada. E, durante seu período entre os krahô, ele não produziu nada relacionado à sua pesquisa. Manoel Perna, explica: "Ele estava cansado de observar, mas nada podia lhe causar maior repulsa do que ter que viver com os índios, comer sua comida, participar da vida cotidiana e dos rituais, fingindo ser um deles. Tentava manter-se afastado e, num círculo vicioso, voltava a ser observador" (Carvalho, 2002, p.49).

O desespero e a solidão parecem estar ligados a uma busca desesperada e fracassada pelo real. É para isso que a carta de Perna aponta: "Se pomos o corpo à prova, não é pelo capricho fútil de saber até onde podemos ir, não é para desafiar os limites, mas para saber onde estamos" (Carvalho, 2002, p.118). A violência contra o próprio corpo reflete uma fuga à observação de fora e uma vontade de sentir o real na própria carne. Mas quanto mais o antropólogo quer ser, sentir pertencimento, encontrar o real, mas se depara com a necessidade de seguir ficções necessárias numa vida coletiva, seja esta onde for. Quanto mais o narrador busca o real, a verdade, mais se depara com a ficção, a única a preencher o abismo entre o eu e o outro enfatizado por Rilke no texto de Crapanzano.

Numa das cenas do livro, o narrador destaca uma fala de Lévi-Strauss:

Numa das entrevistas, a propósito de uma polêmica sobre o racismo e a xenofobia na França, em que tinha sido mal interpretado, Lévi-Strauss reafirmou a sua posição: "Quanto mais as culturas se comunicam, mais elas tendem a se uniformizar, menos elas têm a comunicar. O problema para a humanidade é que haja comunicação suficiente entre as culturas, mas não excessiva. Quando eu estava no Brasil, há mais de cinqüenta anos, fiquei profundamente emocionado, é claro, com o destino daquelas pequenas culturas ameaçadas de extinção. Cinqüenta anos depois, faço uma constatação que me surpreende: também a minha própria cultura está ameaçada." (Carvalho, 2002, p.46)

A afirmação de Lévi-Strauss faz o leitor trazer as questões ligadas à trajetória de Buell Quain para os dias de hoje. O próprio escritor faz este movimento ao inserir um narrador-jornalista atrás dos rastros do antropólogo. De certa forma, a busca solitária de Quain pelo outro, pelo real, por pertencimento, encontra eco na própria viagem do narrador ao passado. O outro que obceca o narrador, produto de um mundo urbano e globalizado, com características uniformes e com a passagem entre diferentes culturas cada vez mais facilitada, não está mais numa tribo exótica. As viagens que faz não são apenas espaciais, mas ocorrem no tempo, e fazem com que ele se depare também com aspectos de sua própria trajetória de vida.

Fatos da vida de Buell Quain se confundem com momentos de sua história. Assim, os percursos do etnólogo pelas tribos brasileiras vão lembrar as viagens que era obrigado a fazer com o pai ao Xingu. O horror e a incompreensão que o próprio narrador sentia em relação aos índios (Bernardo Carvalho ainda instaura mais incerteza no leitor ao colocar, na orelha do livro, uma foto dele ainda criança de mãos dadas com um índio). Os murmúrios que um senhor enfermo fazia ao lado da cama de seu pai moribundo são recordados, anos depois, como chamados a Buell. Talvez fosse esse o nome que americano no leito de morte repetia incessantemente e que, só agora, enquanto realiza a pesquisa, ele pôde decifrar. O americano poderia ser uma chave importante para a descoberta de mais e novos fatos relacionados a vida de Quain.

O senhor poderia ser um fotógrafo amigo de Quain, aquele que conseguiu captar a verdade do etnólogo numa foto tirada de surpresa, anos antes de vir ao Brasil. "Havia sido traído pelo intruso e sua câmera. Não podia admitir que aquela fosse a sua imagem mais verdadeira: a expressão de espanto diante do desconhecido" (Carvalho, 2002, p.104). O fotógrafo seria o amigo que o traiu com a esposa? Um amante talvez? Ou aquele que conseguiu captar sua verdade, a imagem de desconforto que ele viajou o mundo para tentar mudar? A realidade poderia estar na redutora imagem de uma foto?

O narrador segue esta pista, viaja até os Estados Unidos atrás do filho ainda vivo do fotógrafo, remexe nos pertences que o morto deixou, nas imagens que captou pela vida, mas a única certeza que ele encontra é a de ter se deparado com sua própria culpa, ao recordar a distância entre ele e o pai e sua atitude nos últimos dias de vida do parente tão próximo. O olhar de espanto que o pai lhe dirige da cama do hospital, sem conseguir mais articular nenhuma palavra. Um olhar para sempre incompreendido e nunca esquecido. O pai visto, na distância dos anos, como um outro desconhecido e inacessível.

No artigo "Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira" (2007), Rita Olivieri-Godet defende que a produção literária contemporânea reflete uma poética da alteridade. Para ela, seria uma literatura que corre, de forma labiríntica, em busca do outro.

Estranhamento, deslocamento de referências identitárias e culturais, jogo entre o verdadeiro, o falso e o verossímil, transgressão de fronteiras entre o real e o imaginário, não raro essas narrativas mergulham numa atmosfera onírica de inquietante estranheza, para tentar captar talvez o não assimilável do Outro, o que Lévi-Strauss chama de "o ponto cego da diferença" ou, no sentido contrário, o próprio ponto de onde o sujeito olha. (Olivieri-Godet, 2007, p.233-234)

Para a autora, a concepção da identidade seria construída no embate com o outro. E, numa época de globalização, de fronteiras elásticas, de perda das essências, como Lévi-Strauss afirma na declaração destacada em Nove noites, em que todas as culturas parecem se homogeneizar e perder suas peculiaridades mais características, a busca do outro aparece como uma possibilidade de definição de sua própria personalidade. Haveria uma tentativa não de mapear o mundo ou culturas, mas a si mesmo.

O embate com culturas novas acentuaria esta busca, e serviria como uma espécie de espelho, que possibilitaria a visão de seu próprio reflexo. Só frente a desconhecidos tão diversos, como a tribo krahô no interior da floresta, por exemplo, ficaria evidente a existência de uma alteridade que não se rende. Para a autora, a característica pode ser observada na literatura brasileira contemporânea. Depois de percorrer décadas pensando uma questão nacional, abre espaço para uma busca existencial, "de um lugar para si, num tempo presente que acena para o indivíduo como a redução do mesmo – sua dissolução na massa uniforme da homogeneização – ou o condena a se refugiar na sua diferença – sua desesperada solidão ou sua assimilação aos guetos" (Olivieri-Godet, 2007, p.237). O outro, porém, parece estar em toda parte, se sobrepondo em superficialidades, sempre inatingível de uma forma completa.

Em "Literatura/cultura/ficções reais" (2003), Heidrun Krieger Olinto analisa as constantes transformações das culturas contemporâneas e os seus efeitos nas produções artísticas e acadêmicas. Desde o fim do século XIX, as produções artísticas vêm discutindo e captando este mundo acelerado, de transformações constantes e, a partir de meados do século XX, os estudos teóricos sentiram a necessidade de seguir o movimento. Como resultado houve uma pulverização das fronteiras que separavam as inúmeras ciências e disciplinas. A antropologia, a história e a literatura, por exemplo, passaram a se misturar nos estudos que analisam a cultura contemporânea, levando em conta aspectos subjetivos.

Transformações no terreno das idéias que apenas refletiam mudanças culturais. As sociedades sofreram influências mútuas e uma abertura radical de suas fontes, em alguns casos, passando por releituras e a dissociação de tradições nacionais. Um contínuo processo de inovação e transformação em todas as partes do mundo. Esta vida fluida e acelerada criou um terreno propício para a busca e a discussão do conceito de realidade. Heidrun afirma: "Os novos mundos das realidades virtuais, dos ciberespaços e da hipermídia motivaram intensos e acalorados debates sobre o próprio conceito de realidade" (Olinto, 2003, p.80). Para a autora, as constantes buscas e reflexões sobre o real refletem a necessidade de adquirir alguma confiança que resista a ser abalada pelas muitas mudanças e experiências do mundo contemporâneo.

Textos literários e produções artísticas de uma forma geral têm refletido sobre uma possível dissolução da linha que separa o que é real do ficcional e sobre a solidão que marca esta busca frustrada. Em Nove noites, Bernardo Carvalho pensa sobre estas questões e parece nos dizer que realidade e ficção se tornaram conceitos indissociáveis. Buell Quain viaja o mundo, corre atrás das culturas que poderiam ser mais puras, chega a tribos indígenas, e não consegue se livrar de ficções sociais, de ter que desempenhar papéis frente aos outros. Não consegue deixar de observar e apenas ser. O narrador, em busca obcecada pela verdade, descobre que ela só poderia estar na oitava carta, naquela imaginada. A imaginação, a ficção, é a única que pode dar sentido a uma história que chega em pedaços, fragmentos que nunca se completam.

A solidão marca as duas buscas. No embate com o outro eles poderiam sentir uma sensação de pertencimento, de real, algo que definisse sua própria personalidade no mundo. Buell fracassa, se entrega. Ele se suicida no meio da mata, deixando para os índios, os amigos, o narrador-investigador, os leitores dos recortes de jornais que noticiaram a sua morte, a constatação deste lugar inatingível que só o próprio indivíduo pode ter acesso. A confirmação da tal solidão que Leonor Arfuch cita. O tal lugar inatingível que Rilke descreveu ao comentar o seu encontro com Rodin. O que sentiu no momento da decisão? O que o levou a tirar a própria vida? Por mais que se investigue, não há como saber. Os pontos de interrogação nunca deixam de existir.

O jornalista que segue seus passos se depara apenas com recortes de sua história e, em sua trajetória solitária, encontra no embate com o outro, reflexões sobre sua própria vida. Mesmo que não desista de procurar e vá cada vez mais fundo na investigação, suposições é tudo o que pode encontrar.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

ARFUCH, Leonor. La vida como narración. Palavra, 10, 2003, p.45-46.

CARNEIRO, Flávio. No país do presente. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

CARVALHO, Bernardo. Nove Noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

CRAPANZANO, Vincent. On dialogue. In: Tullio Maranhão (ed.). The interpretation of Dialogue. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1990, p.269-291.

CLIFFORD, James. Introduction. Partial Truths. In: __ & George E. Marcus (eds.). Writing Culture. The Poetics and Politics of Ethnography. Berkley, Los Angeles, London: California UP, 1986, p. 1-26.

GEERTZ, Clifford.

  • Being There: Antropology and the Scene of Writing. In: __ Works and Lives. The Anthropologist as Author. Stanford, California: Stanford UP, 1988, p. 01-24.
  • Being Here: Whose Life is It Anyway? In: __ Works and Lives. The Anthropologist as Author. Stanford, California: Stanford UP, 1988, p. 129-152.

GODET-OLIVIERI, Rita. Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira. In: Escritas da Violência. Estudos de literatura brasileira contemporânea, 29, 2007, p.233-252.

OLINTO, Heidrun Krieger. Literatura/cultura/ficções reais. In: ___ & Karl Eric Schollhammer. Literatura e cultura. Rio de Janeiro: Ed. Loyola/PUC-Rio, 2003, p.72-86.

Introdução :: Romance: um gênero possível?

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Entrevista com Luiz Ruffato

Referências bibliográficas

Ficções e realidades: A solitária busca pelo outro

Cláudia Nina :: Currículo lattes - CNPq

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