Romance: um gênero possível?
Pós-doutorado PUC-Rio
ELES ERAM MUITOS CAVALOS:
UMA PROPOSTA DE LEITURA
O "romance"
Eles eram muitos cavalos é a tentativa de um autor reproduzir a balbúrdia de uma cidade grande, no caso, São Paulo, não só em imagens cotidianas ou chocantes, como também a poluição sonora: gritarias, buzinas, sons de sirene, tiroteio, guitarras... Tudo isso entrecortado por diálogos rascantes ou ingênuos, muitas vezes solitários, quase monólogos. Está-se ainda diante da busca do desvendamento do grande urbano em um único dia na vida de personagens de classes sociais diferentes, que vivem situações diversas em cenários distintos, sem se conhecerem ou se encontrarem. São casais desfeitos, crianças roídas por ratos em barracos imundos, homens e jovens assassinados em seqüestros relâmpagos, vendedores ambulantes, velhos sem mercado de trabalho, famílias aglomeradas em caixas-apartamentos, pastores, vendedores de balas, assaltantes, motoristas de táxi, etc. Os quadros se multiplicam e de desdobram enquanto a linguagem fragmentada tenta dar conta de toda esta urbana confusão.
A denominação "romance" parece inicialmente servir a uma obra feita de múltiplos registros e marcadamente episódica apenas na falta de melhor denominação. Entretanto, o desafio deste projeto desdobra-se na tentativa de entender que esta obra é, de fato, não simplesmente um romance, nos moldes em que historicamente se convencionou chamar até mesmo obras-limite, como Ulysses, mas um "romance possível".
As reflexões levam ao pensamento de que a obra é, sim, um romance talhado nos moldes da contemporaneidade brasileira pós-2000 à medida que já não faz mais sentido, no meio do caos, a composição de histórias com começo, meio e fim previsíveis. Eles eram muitos cavalos é a exacerbação das experimentações por vários sentidos, sobretudo pela absorção de diversos registros, vozes e disposição das cenas que, em fragmentos, surgem aqui e ali, sem que os episódios ou as histórias tenham qualquer conexão entre si, a não ser o fato de que todas ocorrem em um mesmo dia (9 de maio de 2000) e local – São Paulo, o grande cenário. A obra coloca o leitor na posição de condutor de sua leitura, pois este "passeia" pelos cenários e pelos dramas seguindo o seu próprio itinerário.
A "instalação"
Para o autor Luiz Ruffato, a denominação de romance a Eles eram muitos cavalos obedece mais a necessidades externas – catalogação bibliográfica de posicionamento no mercado editorial, etc. (LINK) - do que propriamente à estrutura da obra. O livro teria sido concebido, tomando emprestado o termo das artes plásticas, mais como uma "instalação literária" e não simplesmente como conto, romance ou poesia. E mais: a idéia original era a de que a obra não tivesse a forma de um livro, mas de uma pequena caixa, onde os capítulos, sem título ou paginação, aparecessem soltos para que o leitor não só montasse a sua própria narrativa, uma vez que de cada embaralhamento nasceria uma nova leitura, como anotasse as suas impressões nas páginas em branco que viriam junto aos cadernos.
Como os episódios não seguem uma ordem de acontecimentos, cada leitor pode entrar neste livro pela porta que quiser. Eu escolho, então, uma porta onde está escrito o título "A espera". Entro. Descubro aí um texto que bem poderia intitular-se "O emprego", "A sopa", "A entrevista" ou alguma outra coisa. A escolha por um título que substitua o original também é parte do jogo.
O texto
(conto, episódio, fragmento de romance, de conto, de episódio?)
Eis um trecho:
17. Assustado, espoca os olhos, o sol dez e quinze no despertador, cobertor desfolhado no chão, travesseiro enganchado nas pernas, fios encrespados dos longos cabelos acortinando o rosto, senta na beira da cama, espreguiça, levanta-se, uma aragem escorre por entre a persiana semi-aberta, os telhados vermelhos da Vila Santo Stéfano, a Imigrantes, ao longe.
Sem camisa, a calça de moletom cinza arrasta o chinelo-raider pelo sinteco até a cozinha. Nas trempes engorduradas do fogão-a-gás, um coador engasgado de pó-de-café mergulha num bule verde-escuro empipocado de florzinhas brancas, a espuma aerada do leite fervido cobre o campo negro do tefal, uma tampa assenta-se deselegante sobre a garganta da panela-de-pressão, restos de uma sopa-knorr galinha-caipira. Na porta da geladeira, fixado por imãs (um abacate, um chuchu e a propaganda de uma farmácia), um bilhete:
Não vá perder a hora, meu amor.
Estou torcendo por você.
Boa sorte.
Beijo da
Mamãe.
Amassa o papel, enfia-o na lixeirinha que transborda cascas de banana na superfície molhada da pia. Pega duas fatias de pão-de-fôrma, cimenta-as de margarina, abraça-as no tostex, risca o fósforo, despeja um pouco de leite no saquinho na leiteira amassada, acende a outra boca. Boceja. Aguarda, um L&M nos lábios, um Almanaque de Férias da Mônica antigo na mão. As duas fatias de pão-de-fôrma esturricadas joga desengonçado em cima da toalha da mesa, as pontas do polegar e do indicador sapecadas. Na xícara, ao leite quente adiciona um pingo de café, já frio, da garrafa térmica. De pé, mastiga, o gibi, o cigarro, o vento eriça os pêlos do braço, a pele do torso nu, mastiga o café com leite engole, as mãos limpa na calça de moletom cinza.
(...)
A entrevista às duas horas, esquina da Avenida Ipiranga com a Rua da Constelação, Tem tempo, vasculha as lojas da Galeria do Rock, Cada cedê!, uma tentação, mas, nem um nada no bolso, a conta de voltar para casa, desanima, bate perna, Rua Conselheiro Crispiniano, Rua Xavier de Toledo, Rua Bráulio Gomes, Praça Dom José Gaspar, Avenida São Luís, Avenida Ipiranga. Estacado na calçada oposta, fuma vagarosamente, observa a entrada do prédio, um restaurante-a-quilo em baixo, três degraus, mármore amarelado, quinas quebradas. Lá em cima, sétimo andar, deve haver, numa sala pequena e sáunica, divisórias de madeira, sentado enigmático atrás de uma mesa abarrotada de pastas coloridas, uma estante de metal cinza às costas, impenetráveis livros contábeis, um terno-gravata, décima entrevista em dois meses, Décima entrevista!
(À noite, alarmada, a mãe assiste, encostada ao portal, panela-de-pressão envergando a mão direita, o noticiário na televisão, as cores escapolem, mancham as paredes da sala, o filho saiu para procurar emprego, não voltou ainda, nem telefonou, Será que aconteceu alguma coisa, meu deus?, atravessa no intervalo o corredor, põe a sopa-knorr gapinha-caipira para requentar.)
O que não acontece
(na solidão dos longes entrevistos...)
O episódio pode ser lido, e apenas aceno aqui com uma proposta de leitura, como uma espécie de epígrafe deste que é mais um livro de "esperas", de não-acontecimento, de falhas, de vidas que aguardam por alguma coisa de diferente (surpresa) que poderá salvá-las da morna sucessão dos dias tristes, mas que recebem da cidade um atropelo ou algum outro sobressalto menos feliz; sentem-se, então, chacoalhados da posição inicial de espera.
Na maioria das vezes, o que acontece está no que não é dito. Eis o que é mais forte na ficção deste autor. Vejamos este episódio, especificamente. Um jovem (os cabelos amarrados num rabo-cavalo ajudam a compor a pessoa mais à frente; no início, tem-se apenas o peito nu, a calça de moletom cinza e o chinelo-raider) acorda e se apronta para uma entrevista de emprego marcada para as duas horas.
Não fosse o talento narrativo do autor, o fio de enredo terminaria aí, sem alcance para se estender além da segunda linha. Contudo, o que mais chama a atenção nestas precisas duas páginas e meia de história é a maneira econômica e poética como Ruffato caracteriza o personagem e desenha o ambiente por onde circula o jovem – dentro e fora de casa. O autor descreve diminutamente um trivial sem quase nenhuma importância, mas que, paradoxalmente, é toda a história, incluindo o que esta esconde, revela, subtrai ou sussurra.
A voz do jovem não se ouve a não ser nas breves frases que o narrador deixa escapar como pensamentos do personagem. Na falta de diálogos, a voz da mãe aparece distante num pequeno recado deixado na porta da geladeira; o expediente é fundamental para que se crie o clima de angústia que em pouquíssimas linhas irá se formar depois: a mãe não se despede do filho pela manhã; ele apronta o café sozinho, nas trempes engorduradas do fogão-a-gás, onde se vê uma panela de pressão – a mesma que ressurge no final da história, imagem repetida, plena de significação, que não aparece aqui e ali inocentemente: a mãe requenta a sopa na tal panela enquanto espera o filho chegar.
Ainda sobre o cenário. Há riqueza – apesar da concisão – em tudo o que minimamente o autor escreve (ou deixa em suspenso) em poucas páginas. Para quem está familiarizado com o cenário descrito, talvez o efeito da construção das imagens seja ainda maior. Mesmo sem conhecer bem as ruas ou os telhados de que fala o autor, pode-se imaginar com perfeição o ambiente onde vive o personagem e por onde ele caminha até chegar ao prédio da entrevista. Esta construção é também uma espera. Não é só a mãe que aguarda, em espera agônica, o filho chegar; o jovem tem uma entrevista de emprego marcada para as 14h e por isso o preparo de sua partida desde o momento em que se levanta pela manhã já faz parte de uma longa espera, que inclui o café e a caminhada até o local.
Tudo parece lento, amornado na espuma do leite fervido; na mastigação do pão-de-fôrma, no passo a passo em direção à solidão dos "longes entrevistos", na travessia de um trajeto onde se aninham trombadinhas, vagabundos, caídos, bêbados e drogados. Este lento arrastar conduz o leitor a um destino nenhum. Nada do que acontece nas ruas acontece de fato no texto, pelo menos não explicitamente. O que acontece irrompe apenas na mente daquele que segue a história e espera (espera!) que alguma coisa ocorra no final da rua – do texto.
O que se lê ao final é a espera da mãe por um filho que saiu pela manhã e à noite ainda não havia chegado. A panela de pressão, onde a sopa da véspera será requentada, anuncia talvez que alguma coisa poderá explodir e fazer voar pelos ares a vida morna daquela casa. Nada é dito, porém, e o conto termina vagamente com a espera de um jantar, que poderá ou não acontecer.
Há certamente episódios em que muitas coisas ocorrem. Assaltos, mortes trágicas, seqüestros. Mas o que ocorre não é nada diferente do que diariamente se lê nos jornais ou nos noticiários. Os mínimos movimentos dos ratos nas casas imundas ou os recados de uma secretária eletrônica são eventos silentes que não acontecem porque quase ninguém vê, ou seja, não sai da esfera doméstica ou do cenário onde alguns poucos dividem a ação. O mesmo se diz de um jovem que acorda e apronta solitariamente seu café num fogão cheio de gordura e depois sai; quem sabe hoje ele não consegue um emprego? Quem se importa? Isto não acontece, ninguém viu. São cenas banais que ocorrem diariamente (invisivelmente) em todos os lugares do mundo, mas que, elevados à categoria literária nas mãos de um autor como Ruffato, viram momentos quase epifânicos.
A desordem das cartas
Se eu tivesse desmembrado o livro em pedaços, embaralhado as cartas-episódios e feito destes um novo arranjo, não poderia jamais sucumbir à tentação de impor à obra uma ordem outra que não fosse o caos; dar a Eles eram muitos cavalos algum sentido de ordem, seguindo o esquema início, meio e fim, seria ler um livro que não existe.
No artigo "Uma Paulicéia pra lá de desvairada", Marisa Lajolo faz uma reflexão sobre este impulso natural a todo leitor de conferir sentidos e forçar interpretações no desenvolvimento das histórias. Lajolo escreve:
Pois leitores, por hipótese, são máquinas que produzem sentido. Sempre. E leitores de romance são máquinas especialíssimas. Acatam e mantêm um pacto com os autores dos livros que lêem de que as histórias têm um sentido e que, perseverando na leitura, suas expectativas e o desenrolar das histórias acabarão por se encontrar, ainda que o desenrolar das histórias possa ser bastante distinto daquele que antecipavam: frustrar expectativas é ainda uma forma de relacionar-se a elas.
Mas no caso deste livro de Ruffato, é em vão que meu leitor se empenhe em construir origens e continuações para os vários segmentos que constituem o livro. A história com dois homens e um menino que caminham pela borda de uma estrada não se engata em nenhuma outra passagem do livro. Tampouco a do sujeito-de-mal-com-o-mundo. Tampouco cada um dos outros blocos numerados do livro.
A autora de Como e por que ler o romance brasileiro e do romance Destino em aberto, entre outros, prossegue a análise, aproximando o movimento de leitura da obra em questão ao processo de busca nas ferramentas on-line:
Ao abdicar de construir um sentido para cada historinha (ou, vá,lá, fragmento de historinha) de EEMC, o leitor começa a mergulhar no que talvez seja, exatamente, o projeto literário da narrativa contemporânea: a simulação de uma realidade entrecortada, interrompida, inconclusa, onde os links podem ser tão aleatórios como a resposta que se recebe quando se comanda, em uma máquina de busca como o Google por exemplo, pesquisa sobre um determinado tema.
(...)
Mas na leitura de romance, geralmente os usuários deles (leitores chamados...) parecem investir sempre na crença da inteligibilidade daquilo que lêem, mesmo que esta seja virtual. Ou seja, os leitores são mais maleáveis do que máquinas de busca.
Pode-se analisar Eles eram muitos cavalos de diversos pontos de vista, assim como vários são os pontos de vista que as histórias apresentam numa polifonia perturbadora. O que se prioriza aqui é insistir na questão: ainda que seja um romance em nada semelhante a "modelos" de romance, ainda assim a obra é mais romance do que qualquer outra coisa – mais romance do que conto; mais romance do que drama; mais romance do que poesia. Como escreve – de forma simples e precisa – o crítico Nelson de Oliveira em texto sobre a obra: "Cada uma das narrativas é um minitexto fechado em si mesmo, com protagonistas e ação próprios. Por que, então, chamar esse conjunto de 'romance'? Por que o resultado da reunião desses contos é muito maior do que a mera justaposição de todos eles".
Seguindo este raciocínio, até mesmo uma seleção de cartas pode ser um romance ainda que não haja nenhum alinhavo cronológico unindo as diversas missivas de um determinado volume. O alargamento das dimensões dos gêneros é conseqüência natural da evolução dos tempos em que a própria reflexão sobre a natureza dos gêneros literários parece ter caído em desuso.
A aproximação a Eles eram muitos cavalos desdobra-se, então, na multiplicidade das suas possibilidades de leitura; para um leitor ainda apegado ao "modelo forte" de que fala Roland Barthes em O prazer do texto, a leitura linear é a primeira escolha – e certamente ele irá procurar (e talvez até encontre) um elemento comum a todos os textos (episódios, mini-contos), montando uma seqüência coerente entre todas as histórias ali reunidas. Criando, com isso, um romance que não existe.
Para o leitor de hoje, porém, o mesmo que zapeia o controle remoto da TV e que faz do Google sua ferramenta de leitura e pesquisa diárias, quanto mais desnorteada for a escolha do itinerário a seguir em um texto de múltiplos roteiros, mais proveito irá tirar de cada pequeno momento ali recuperado. No panorama da cidade desenhada na escrita de Luiz Ruffato, o mundinho de cada indivíduo retratado é mais importante do que as grandes realidades históricas. Este cuidado com o "micro" está igualmente presente na cuidadosa escolha das palavras e na elaborada construção de cada cena, embora nada – nenhuma descrição de ambientes ou ação – se demore mais do que o objetivamente necessário. Há que se dizer: o autor é também jornalista e é bem provável que a formação tenha ajudado a montar um estilo que naturalmente se afasta do palavroso. Uma observação: a mesma impaciência do olhar que captou os flagrantes e preferiu restringi-los àqueles precisos textos que parecem trechos ou cortes cinematográficos, encontra-se na impaciência do olhar do leitor contemporâneo que, em uma plena sintonia de ritmos, acompanha, acelerado, as cenas que lhe são apresentadas.
O mais enriquecedor em Eles eram muitos cavalos é que a leitura não se esgota em apenas um trajeto. Há vários roteiros. Um deles é tentar fazer o que propõe seu autor: recortar os fragmentos e colocar em uma caixa. Embaralhar os textos como se fossem cartas. A leitura pode ser feita em grupo, melhor ainda. Cada leitor lê em voz alta o trecho que "tirou". E o que era "romance" vira teatro, conversa, recitação ou viagem individual de cada um ao coração da maior cidade da América Latina em um dia que pode ser hoje, já que tudo o que está li ainda continua, certamente, "não-acontecendo" de novo, dentro das portas fechadas, nos carros ou nas esquinas por onde passa um emaranhado de gente que ninguém conhece.
Introdução :: Romance: um gênero possível?
Eles eram muitos cavalos, uma proposta de leitura
Del.icio.us